6 de maio de 2009

O Parto

A próxima semana será a Semana Mundial pelo Parto Respeitado (não vi nada sobre Portugal?). Talvez por isso se tenha estado a falar sobre este assunto.

Como já aqui tinha escrito, fiquei a pensar nisto desde que li o post da Rita.

Ao assistir a estes dois programas (o primeiro já só vi a segunda metade), apeteceu-me fazer alguns comentários.

Não posso deixar de comentar o óbvio. A postura da médica Maria do Céu Santo no Programa Sociedade Civil. Fez-me lembrar o video da Associação Espanhola já muito divulgado em blogs.

O que é que eu posso dizer sem ser... muito... nem pouco... Vejamos, a senhora é arrogante. Não há volta a dar aos adjectivos. É arrogante, invasiva, defensora da classe... enfim o rol poderia continuar. Com a verdade de uma estatística numa mão e o medo na outra, atrai a maioria dos espectadores. Sabe disso e usa e abusa dos argumentos que abonam em seu favor não dando espaço a outras realidades. Para mim, toda esta postura espelha bem a realidade do parto hospitalar. É isto que se passa. Parimos no hospital, porque, ainda assim, é o local mais seguro, sujeitamo-nos à vontade do médico, enfermeiro, auxiliar, porque assim tem de ser e não somos peça no puzzle porque não sabemos nada do assunto. Claro que é por tudo isto que quem pode recorre aos cuidados particulares. Aqui não se pare, aqui dá-se à luz e isto diz tudo. Aqui sabem os nossos nomes e até os dos nossos outros filhos, faz-se conversa, há gelo e saquinhos quentes, tudo ao gosto da freguesa. Nesta margem há também quem opte pela cesariana, pois claro. É tudo mais limpo. Fiquei impressionada por saber que há quem prefira a cesariana para não estragar tanto o corpo (?). A máxima judaico-cristã “Parirás com dor” faz cada vez menos sentido.

Outra intervenção que despertou a minha atenção foi, na GRANDE REPORTAGEM, uma enfermeira ter falado em “macaquinhos”. Já vi um comentário sobre isto também e foi o que eu pensei na altura. Mas... a senhora não percebeu? HUMANIZAÇÃO! A mulher está lá, o pai também sempre que pode. Os robots é que têm de ser humanizados! Percebeu? Quem está automatizado é que tem de se humanizar. A mulher que está ali naquela marquesa minúscula (para mim que sou uma mulher pequena, imagino para uma mulher alta) está no auge da sua Humanidade – humilde e fragilizada. Quem lhe entra porta dentro e nem para a sua cara olha é que precisa de Humanidade.

Outros apontamento. O próprio director da MAC mostrou os instrumentos humanizadores da maternidade. Mostrou a Roda e disse para quem quis ouvir, que é uma coisa que não é muito oferecida às senhoras porque não dá muito jeito ao médico. É usada todas as semanas disse ele. Quando eu lá estive perguntei pela roda mas disseram-me logo que ali não davam epidural (como se eu tivesse falado em anestesias) e a conversa ficou por ali. Na roda, a mulher mexe-se mais como quer mas não dá jeito nenhum ao médico (novamente o video me vem à cabeça).

Só recentemente tive conhecimento da existência de doulas. Não sabia que as havia em Portugal e que havia até uma organização. Sabia da existência destas mulheres, desconhecia o nome, mas sempre as associei a comunidades hippies de países como a Alemanha ou França. Acho que a maioria das pessoas tem a mesma ideia. No programa da RTP2 acho que a representante das Doulas de Portugal Carla Guiomar esteve bem. Apesar de ser um programa de televisão em directo, conseguiu expor as suas opiniões. Não estava numa posição fácil. Acho que foi um bocadinho mais além do que devia. Perdoem-me agora os preconceitos sociais (embora que invertidos para a maiorias das pessoas, são sempre preconceitos)... mas Carla tinha uma médica cheia de madeixas à sua frente e falou-lhe em parto na água, com a família toda a ver... acho que isto foi demais para a doutora! Se queremos que nos ouçam temos de ír com calma.

Sensualidade uma questão também focada. Neste aspecto, tenho a dizer que, depois de muito pensar nas várias arestas da questão, posso dizer que de facto o parto tem mesmo a sua sensualidade, ou melhor, deveria ter. O nascimento de um filho, é o resultado do amor entre o casal. Não faria sentido para mim ter os meus filhos sem a presença do pai. O pai dos meus filhos pôde estar presente no nascimento dos três. Esteve ao meu lado, sofreu, fez força, esteve ansioso, apoiou-me, ficou exausto quando eles nasceram. Posso afirmar que passou por tudo aquilo que eu passei (tirando a parte óbvia, claro). Ele sabe o que é ter filhos. Para mim, e falo apenas na minha perspectiva, a sexualidade é isto mesmo, faz-se no dia-a-dia e não na hora de ír para a cama. É a cumplicidade que marca a diferença e que une as pessoas ao longo da vida. As mulheres devem lutar também por isto e contribuir para que a nossa sexualidade vá de encontro às necessidades de cada um (isto dá argumento para outros posts aqui ou noutros sítios). Claro que os homens (e as mulheres) são todos diferentes, mas foi por isso que eu escolhi este.

Acho muito importante que se discuta este assunto. Tenho filhos e gostaria que estivessem os três mais esclarecidos para poderem fazer melhor as suas escolhas. Os três porque o parto pode não ser só da mulher, depende de como é entendido. Todas as opções são válidas, desde que feitas em consciência.

Para falar verdade, e com muita pena minha, parece-me bastante prematuro falar de parto em casa. Parto respeitado sim, mas em casa parece-me cedo demais. Se há uns anos o parto em casa era a única solução para a maioria, hoje parece-me ainda o privilégio de uma minoria.

Muito fica por comentar e ponderar.

6 comentários:

  1. :)

    Tens de vir cá a casa ver uns filmes:)

    ResponderEliminar
  2. porque dizes isso? espero que não seja nada que tenha dado origem a más interpretações. às vezes queremos não ofender e fazemos como a outra senhora, um jeitinho para aqui outro para ali, e o resultado acabo por ser aquilo que não queriamos.

    ResponderEliminar
  3. Retenho a frase:"É a cumplicidade que marca a diferença e que une as pessoas ao longo da vida".Claro que sim, não só na sensulidade, mas em tudo! Para, e com o parto, a mulher ama, chora e sofre, isto é, dá-se à vida. Ou (sopra-me a poesia de Vinicius de Moraes), não quer passar pela vida sem a viver. A cumplicidade é um ser companheiro e amigo, um porto de abrigo e de retempero.
    Quanto ao texto, na globalidade, ele é um exercício do que mais belo tem a cidadania livre: o direito de opinião. Neste caso, de quem ama e vive.Continua.

    ResponderEliminar
  4. Rosinha,
    Fui assistir a um parto na MAC na roda. Conto-te ao vivo.
    Beijinhos
    Susete

    ResponderEliminar